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Radar de Notícias 24 de outubro de 2026

Até 85% dos plays de música feita por IA na Deezer eram fraude, e foi esse dado que levou um deputado a pedir a consulta dos EUA

Em 21 de maio de 2026, o deputado americano Scott Fitzgerald, republicano de Wisconsin e membro da Comissão de Justiça da Câmara, mandou uma carta ao Escritório de Direitos Autorais dos Estados Unidos (U.S. Copyright Office) pedindo que o órgão estudasse o papel da inteligência artificial na fraude de streaming. O dado mais forte da carta veio da Deezer: em 2025, até 85% das reproduções de faixas feitas inteiramente por IA na plataforma foram classificadas como fraude. A resposta saiu em 7 de outubro, como consulta pública, que recebe comentários até 23 de novembro.

A carta falava de IA, a consulta ficou mais ampla

Fitzgerald abriu a carta pedindo que o órgão examinasse "os efeitos da inteligência artificial na fraude de streaming musical" e o impacto disso na indústria. Ele fez questão de dizer que não vê nada de errado em usar IA como ferramenta de criação. A preocupação dele era outra: a IA deixou barato produzir milhares de faixas, e isso facilita a vida de quem quer encher a plataforma de música pra depois tocar com robô. Ele também citou a música de IA competindo com artistas de carne e osso.

Quando o aviso saiu no Federal Register, o diário oficial do governo americano, o escopo tinha crescido. A consulta, registrada como docket 2026-6, organiza as perguntas em dez temas: como a fraude é feita, que práticas do próprio setor acabam ajudando o fraudador, quanto ela custa, que métodos de combate funcionam, se um banco de dados compartilhado ajudaria, que soluções legais fazem sentido e como melhorar a punição criminal. A relação com a música de IA ficou com um tema só, o quarto da lista. Tem até pergunta sobre show ao vivo, porque número inflado leva produtor a escolher cidade e casa com base num público que não existe.

O que os números da Deezer mostram

O dado usado pelo deputado vem de um comunicado da Deezer de 29 de janeiro de 2026. A plataforma francesa disse que, dependendo do mês, até 85% das reproduções de faixas totalmente geradas por IA foram detectadas como fraude em 2025, e que esse dinheiro foi retirado do pool de royalties. No catálogo inteiro, a fraude ficou em 8% das reproduções. Ao mesmo tempo, a música de IA somava no máximo 3% de tudo que se ouvia na Deezer, mesmo chegando a cerca de 60 mil faixas novas por dia em janeiro, perto de 39% de tudo que era entregue à plataforma.

Traduzindo: quase ninguém ouve essas faixas por vontade própria, mas elas recebem play de robô numa proporção muito maior que a música feita por gente. E o dinheiro em jogo é grande. Segundo o IPWatchdog, citando relatório da DiMA, associação das plataformas digitais, o streaming responde por cerca de 70% das vendas globais de música, e nos Estados Unidos as gravadoras faturaram US$ 9,5 bilhões e as editoras US$ 7,3 bilhões no ano passado. Como o royalty sai de um bolo dividido pelo total de reproduções, cada play falso tira um pedaço de quem foi ouvido de verdade.

Quase ninguém escuta música feita por IA na Deezer, mas é ela que recebe a maior parte dos plays de robô.

O que isso muda

Escrevi aqui no dia 14 sobre a abertura dessa consulta. Voltando nela com a carta do deputado na mão, o que me chama atenção é o órgão ter evitado transformar a fraude num problema de IA. Faz sentido. Michael Smith usou música de IA, mas o golpe dele era de conta falsa e robô, e isso funciona com qualquer faixa. Se a regra americana mirasse só a IA, o fraudador trocaria de ferramenta e seguiria igual. Mirando o método, a conversa vai pra onde dói: distribuidora que aceita qualquer upload sem checar, plataforma que demora pra detectar e quem devolve o dinheiro depois que ele já saiu.

Pra quem administra catálogo e lança artista, como a gente faz na ALKA, o recado prático é que o combate vai apertar dos dois lados. Royalty pode ser retido ou cobrado de volta, faixa pode cair, e quem contratou divulgação com empresa que vende play corre o risco de ser tratado como fraudador mesmo sem saber. A consulta cita justamente as empresas de marketing fraudulentas. Vale conhecer bem quem cuida da divulgação dos seus lançamentos e guardar o histórico de onde vêm os ouvintes. As respostas que chegarem até 23 de novembro vão mostrar o quanto distribuidoras e plataformas estão dispostas a assumir.