O Ecad projeta arrecadar entre R$ 29 milhões e R$ 30 milhões no Ceará em 2026, uma alta de até 15,38% sobre os cerca de R$ 26 milhões de 2025, que foram o 11º maior valor do país. A projeção saiu numa reportagem do O Povo, publicada em 13 de outubro, com dados de Giselle Luz, gerente regional do Ecad no Nordeste. Do total arrecadado, 85% vão direto aos titulares dos direitos. Ainda é estimativa da própria entidade, e não um fechamento de ano.
De onde vem o dinheiro cearense
O Ecad é o escritório que cobra o direito autoral pela execução pública de música: a que toca em bar, loja, academia, rádio e show. No Ceará, os chamados usuários gerais, que são o comércio em geral, respondem por 44% da arrecadação. Shows e eventos ficam com 28% e a rádio com 21%. Fortaleza concentra 67% do total do estado, e lá o comércio pesa ainda mais, com 47%. Boa parte do dinheiro vem, portanto, de quem deixa uma playlist rodando no balcão e raramente pensa nisso como uso de obra alheia.
O outro lado é a inadimplência. Segundo a reportagem, as prefeituras do interior são as maiores devedoras: quase 180 foram notificadas ou visitadas em 2026, e só 24 regularizaram os débitos, algo entre 13% e 14%. Quando a cobrança vai à Justiça, o Ecad diz vencer de 90% a 95% das ações, mas cada uma leva em média 15 anos para tramitar. Esses percentuais são declarações da própria entidade, sem checagem independente na reportagem.
O Ceará dentro do tamanho do Brasil
No país, o Ecad informou ter distribuído mais de R$ 1 bilhão no primeiro semestre de 2026, alta de 16,5% sobre o mesmo período de 2025, a mais de 312 mil titulares. Os serviços digitais foram a maior fonte, com 28% das distribuições, e os shows ao vivo pagaram R$ 151 milhões, 25,4% a mais. Sobre 2025, a Billboard Brasil reportou arrecadação total de R$ 2,105 bilhões, quase 15% acima de 2024, com streaming de áudio e vídeo crescendo 47,2% e chegando a 33,6% de tudo que foi arrecadado.
Há uma diferença de termos que vale registrar. O O Povo fala em R$ 2,1 bilhões distribuídos em 2025, enquanto a Billboard separa os dois números: R$ 2,105 bilhões arrecadados e R$ 1,725 bilhão repassados pelas associações. Usei a separação da Billboard. Pela minha conta, os R$ 26 milhões cearenses de 2025 são pouco mais de 1% da arrecadação nacional, e o crescimento projetado do estado, de até 15%, anda no mesmo passo do nacional. O Ceará cresce na velocidade do país, só que com perfil diferente: aqui o comércio e o evento pesam mais do que o streaming.
O dinheiro da música cresce onde alguém toca, mas só chega ao artista onde alguém pagou.
O que isso muda
Pra quem trabalha com música, o número mostra onde está o dinheiro que muita gente ignora. Quando se fala em renda de autor, a cabeça vai direto pro streaming, mas no Ceará o balcão do comércio paga mais que o palco. Isso quer dizer que obra registrada e bem cadastrada rende também fora do app, em lugar onde ninguém vai ao show. Pra uma empresa de gestão de catálogo, como o Music Copyright, é um indicador útil: o mercado regional existe, cresce e tem espaço pra quem organiza o dado com cuidado.
Pro dono de bar, loja ou academia, a leitura é mais simples. A música que toca no ambiente é um custo do negócio, igual à luz, e quem trata assim evita processo de 15 anos. Pra o artista, o ponto é o mesmo de sempre: obra sem cadastro, sem título de autor e sem split fechado não recebe, não importa quanto o Ecad arrecade. Vale acompanhar o fechamento de 2026 pra ver se a projeção se confirma, e se as prefeituras do interior entram na conta.