Em 28 de outubro de 2026, a Alphabet, dona do Google, divulgou receita de US$ 127,6 bilhões no terceiro trimestre, alta de 25% e a maior da história da empresa. A receita de busca cresceu 12%, pra US$ 63,35 bilhões, depois de crescer 19% no primeiro trimestre e 17% no segundo. Na teleconferência com analistas, Philipp Schindler, chefe de negócios do Google, disse que o forte crescimento das consultas no AI Mode pesou no resultado por causa da monetização menor nesse formato. A ação caiu mais de 8% nas negociações após o fechamento.
Por que a busca desacelerou
O AI Mode é a versão da busca que funciona como conversa: você faz uma pergunta longa, recebe uma resposta montada pela IA e pode continuar perguntando. Sundar Pichai, CEO da Alphabet, disse que as consultas nesse modo são em média três vezes mais longas que uma busca tradicional, e que o crescimento anual do volume de buscas é o maior dos últimos cinco anos. Ou seja, a gente está perguntando mais ao Google. O problema é que cada uma dessas perguntas, hoje, gera menos dinheiro em anúncio do que a busca de sempre.
Schindler listou os motivos da desaceleração em relação ao segundo trimestre. O câmbio foi o maior deles. Depois vieram o varejo, com anunciantes da Ásia afetados pelo fim de uma isenção de impostos pra pequenas encomendas na União Europeia, e o setor de mídia, que gastou acima do normal durante a Copa do Mundo e voltou ao padrão. Só então ele citou o AI Mode: nas palavras dele, o forte crescimento dessas consultas teve impacto por causa da monetização menor. A CFO Anat Ashkenazi avisou que a comparação continua difícil no quarto trimestre, porque a busca acelerou na segunda metade de 2025.
Os números que mudam de um veículo pro outro
O resto do balanço explica por que a ação caiu mesmo com receita recorde. A nuvem do Google cresceu 103%, pra US$ 30,7 bilhões, e os anúncios do YouTube subiram cerca de 9%, pra US$ 11,2 bilhões. Mas o lucro por ação ficou em US$ 2,12, contra cerca de US$ 3,00 esperados, puxado por uma perda de US$ 8,7 bilhões em participações em outras empresas. O investimento em infraestrutura foi de US$ 51,4 bilhões só no trimestre, e pela primeira vez o caixa livre ficou negativo em US$ 9,1 bilhões. A previsão de gasto pra 2026 segue entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões, e a empresa já avisou que 2027 será maior.
Aqui vale um cuidado com a cobertura. O Search Engine Roundtable publicou a receita de busca como US$ 82 bilhões, e o documento oficial enviado à SEC traz US$ 63,35 bilhões. A CNBC citou lucro ajustado de US$ 2,67 por ação, enquanto o número contábil é US$ 2,12. E o dado de 75 milhões de usuários diários no AI Mode, repetido em vários resumos desta semana, foi dito por Pichai no balanço de outubro de 2025. Nesta teleconferência, o Google não divulgou número de usuários do AI Mode nem disse quanto ele rende a menos. O que divulgou foi o plano de anúncios: o formato já tem anúncios em escala em dez países, ganhou anúncios em perguntas de acompanhamento nos Estados Unidos, e Reino Unido, Brasil e México estão na lista pro quarto trimestre.
O Google diz que a pergunta feita à IA vale menos hoje, e mesmo assim vai colocar anúncio nela no Brasil antes do fim do ano.
O que isso muda
Olhando como empresário, eu leio esse balanço como um aviso de pressão. Uma empresa que investe US$ 51 bilhões num trimestre e fica com caixa negativo precisa fazer cada pergunta ao AI Mode render mais, e rápido. Isso significa mais anúncio dentro da resposta da IA, em mais países e em mais formatos. Pra quem compra mídia, o detalhe que mais importa é que campanhas de Search, Shopping e Performance Max entram no AI Mode por padrão, sem opção de ficar de fora e sem relatório separado. Ou seja, parte do seu orçamento já vai pra um formato que o próprio Google admite render menos, e você não consegue medir isso isoladamente. Schindler diz que a taxa de clique em anúncio no AI Mode já é parecida com a do resultado orgânico, mas é dado interno, dos Estados Unidos, de duas semanas.
Pra quem trabalha com música e marketing, a mudança é na visibilidade. Se a pergunta é três vezes mais longa e a resposta vem pronta, sobra menos clique pro site do artista, da gravadora ou da marca. O jogo passa a ser aparecer dentro da resposta, com informação organizada e nome fácil de citar, e não só na lista de links. Eu não mudaria o orçamento agora com base num trimestre. O que eu faria é acompanhar a chegada do anúncio no AI Mode ao Brasil e comparar o custo por resultado antes e depois. Quando o Google disser quanto o formato rende, a gente ajusta.