A Sony Interactive Entertainment, dona do PlayStation, teve publicado nos Estados Unidos em 15 de outubro um pedido de patente de um sistema que ocupa as cadeiras vazias de shows virtuais com personagens controlados por computador. Esses figurantes copiam os gestos de avatares de pessoas reais, como bater palmas, pular e levantar a mão. O documento, de número US 2026/0315927, foi depositado em novembro de 2025 e ainda aguarda análise de um examinador. Ou seja, ainda não existe patente concedida nem produto anunciado.
Por que a Sony quer uma plateia cheia
A ideia vem de longe. O pedido americano é a continuação de um pedido internacional feito no Japão em maio de 2023, assinado por três inventores da empresa: Kazuharu Tanaka, Kiko Sasaki e Ryota Murasugi. A justificativa está no próprio texto: um público animado atrai mais participantes, e figurantes que imitam gente de verdade não chamam atenção como robôs, o que mantém a imersão de quem está assistindo. A Sony usa a palavra credibilidade pra descrever o efeito que quer causar em quem está sentado ao lado de um desses personagens.
O Digital Music News, que deu a notícia em 21 de outubro, levantou outra leitura: a patente pode ser uma forma de esconder a falta de demanda por esse tipo de experiência. O site citou como exemplo os shows dentro do Roblox, em que a arena às vezes parece meio vazia. É uma hipótese do veículo, e a Sony não comentou. Como se trata de um pedido de patente, o documento também não fala de nenhum produto futuro.
Como funciona o fã de mentira
O sistema roda num servidor de metaverso, o computador que controla um mundo virtual compartilhado por várias pessoas. Quando o show começa, ele posiciona os avatares reais no palco e nas cadeiras, e um software separado preenche o resto com NPCs, a sigla em inglês pra personagem que nenhum jogador controla. Pra imitar o público, o servidor lê os dados de esqueleto dos avatares, um mapa das articulações de cada boneco. Numa versão, o figurante copia o avatar real mais próximo. Na outra, copia o gesto mais comum ao redor. Pra multidão não parecer clonada, os NPCs são divididos em três grupos: um imita os artistas, outro imita a plateia vizinha e o terceiro se mexe no ritmo da música, numa proporção de exemplo de 2 pra 1 pra 1. Perto do palco a concentração de figurantes é maior, como num show de verdade.
Vale lembrar até onde esse mercado já chegou. Em abril de 2020, o show do Travis Scott dentro do Fortnite reuniu 12,3 milhões de jogadores ao mesmo tempo, recorde do jogo segundo a Epic Games, e somou 27,7 milhões de participantes únicos em cinco apresentações. O recorde anterior era do Marshmello, com 10,7 milhões, em 2019. Esse foi o auge do assunto. Agora, a empresa dona do console mais vendido da geração está desenhando um jeito de a casa parecer cheia mesmo quando não estiver.
Uma plateia montada pra parecer cheia melhora a experiência de quem foi, mas deixa em dúvida o único número que artista e marca usam pra saber se o show deu certo.
O que isso muda
Do ponto de vista de quem organiza evento, a lógica é velha conhecida. Casa cheia vende mais ingresso, e todo produtor já viu dono de bar segurar gente na porta pra fila parecer maior. Usar figurante como cenário, pra ninguém se sentir sozinho numa arena digital, até faz sentido como produto. O problema começa quando esse figurante entra na conta. Se a plataforma mostra uma plateia lotada e não separa quem é pessoa de quem é personagem, o artista perde a referência do próprio público e o patrocinador paga por uma audiência que não sabe medir. É o mesmo tipo de distorção que a música já enfrenta com fraude de streaming, só que agora desenhada de propósito e com a intenção declarada de não ser percebida.
Pra quem trabalha com comunidade de fã, como a gente faz na Superfans, o valor está justamente no fã identificado: quem ele é, quanto participa, o que compra. Figurante não compra camiseta, não indica o show pro amigo e não volta na próxima turnê. Se esse modelo chegar ao mercado, a pergunta que artista e empresário devem fazer pra qualquer plataforma é simples: quantas pessoas reais estavam lá. Enquanto a Sony não tirar o pedido do papel, fica o alerta pra cobrar esse número desde já.