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Radar de Notícias 24 de outubro de 2026

O streaming passou de 990 bilhões de plays em 2026, e mesmo assim a música nova está tocando menos

A Abramus, associação que arrecada e distribui direitos autorais de música no Brasil, publicou dados da Luminate com 990,3 bilhões de reproduções de streaming de áudio acumuladas em 2026. Desse total, 750,5 bilhões vieram de faixas lançadas há mais de 18 meses, alta de 7,1%. As músicas mais recentes somaram 239,7 bilhões, queda de 3,6%. A nota também registra um pico de 29,7 bilhões de plays em uma única semana nos Estados Unidos, no fim de agosto.

Que número é esse, afinal

A nota da Abramus não informa o período exato da medição nem o território. O resumo que circulou fala em volume global, mas a conta não fecha. O relatório de meio de ano da própria Luminate, publicado em 15 de julho, registrou 2,8 trilhões de streams de áudio sob demanda no mundo só no primeiro semestre, alta de 9,8%. Desse total, 732,7 bilhões foram nos Estados Unidos, com alta de 4,8%, e 2 trilhões no resto do mundo, com crescimento de 11,8%. Ou seja, o mundo inteiro passou dos 990 bilhões ainda no primeiro trimestre.

Pela minha conta, os 990,3 bilhões batem muito melhor com o mercado americano. Somando os 732,7 bilhões do semestre com mais nove ou dez semanas no ritmo de quase 30 bilhões por semana, se chega perto desse valor no fim de agosto, que é exatamente quando a nota registra o pico semanal. É uma dedução minha, e o texto da Abramus não confirma. Também não encontrei na nota nenhum ranking que coloque o Brasil entre os maiores mercados em reprodução, como dizia o resumo da notícia.

O peso do catálogo

O dado mais útil está na divisão. Faixas com mais de 18 meses respondem por cerca de 76% do total, pela conta simples de 750,5 sobre 990,3. Isso combina com a análise do Music Business Worldwide sobre o Top 200 global do Spotify, publicada este mês, em que música com mais de três anos já ficou com 45,1% das streams do ranking. São réguas diferentes, mas apontam pro mesmo lado: o ouvinte volta pro que já conhece, e o lançamento disputa espaço com uma biblioteca que fica maior todo ano.

O Brasil aparece com destaque no relatório da Luminate, só que em outra lista. No Export Power Rankings, que mede quanto a música de um país é ouvida fora dele, o Brasil subiu para o 8º lugar no primeiro semestre, puxado por Alok e Anitta. Esse ranking mede exportação, e não o tamanho do mercado interno. Pesa mais pra quem pensa em carreira fora do país do que pra quem quer medir volume de consumo.

O streaming cresce todo ano, mas quase todo o crescimento está indo pra música que já existia.

O que isso muda

Pra quem trabalha com música, um número gigante de streaming impressiona, mas o que paga a conta é saber de qual pedaço dele você participa. Se três de cada quatro plays vão pra faixas com mais de um ano e meio, o catálogo de um artista ou de uma editora vira o ativo principal do negócio. Cadastro bem feito, metadado limpo e obra registrada rendem mais a cada ano que passa. Pra uma empresa de gestão de direitos, como o Music Copyright, é ali que está a receita recorrente, bem longe da correria da sexta-feira de lançamento.

Fica também uma lição de método. Número de mercado anda rápido, da associação pro blog e do blog pra apresentação de cliente, e no caminho costuma perder o contexto. Antes de usar os 990 bilhões num pitch ou num post, vale dizer de onde vem, que período cobre e de qual país se trata. O relatório anual da Luminate sai no começo do ano que vem, e aí vamos ter o número fechado, com território definido.