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Radar de Notícias 24 de outubro de 2026

A Universal virou a primeira major a deixar uma IA mexer nas suas músicas no meio do jogo, num app que até agora só tinha independentes

A Universal Music Group anunciou em 22 de outubro um acordo de licenciamento com a Tyger, plataforma que usa IA pra adaptar a música ao que acontece na tela durante uma partida. É a primeira grande gravadora a licenciar o serviço, que até aqui tinha mais de 400 mil faixas, quase todas de artistas independentes. Gravações e composições selecionadas do catálogo da Universal vão entrar no plano pago, e parte delas também no plano gratuito com anúncios. O valor do acordo não foi divulgado.

Por que a Universal foi atrás dos games

Hoje, quem quer ouvir a própria música enquanto joga costuma abrir um app de streaming por trás do jogo, e a faixa toca igual do começo ao fim, sem ligar pro que acontece na partida. A Tyger tenta resolver isso. O jogador escolhe a música, e uma tecnologia que a empresa diz ser patenteada ajusta a faixa em tempo real conforme o jogo avança. O serviço roda ao lado do jogo, então o estúdio não precisa mexer em nada pra ele funcionar. Isso muda o caminho tradicional da música em game, que é a licença de sincronização (a autorização pra usar uma música junto com uma imagem), negociada jogo a jogo pelo estúdio. "Os games são onde a próxima geração passa o tempo, descobre cultura e encontra os amigos", disse Nick Venti, CEO e cofundador da Tyger.

Pra Universal, o acordo segue uma linha que ela vem construindo há um ano: licenciar empresas de IA em vez de só brigar com elas. Em outubro de 2025, a gravadora fechou acordo com a Udio, que ela processava. Em setembro de 2026, fechou com a ElevenLabs uma plataforma de remixes por IA com autorização de cada artista. Agora chega aos games. Michael Nash, diretor digital da Universal, disse que a música tem "um papel mais central a cumprir nos games" e que os artistas da casa vão poder dar trilha a partidas personalizadas.

Os números que a Tyger mostra, e os que ficaram de fora

A Tyger está em beta fechado, ou seja, só pra um grupo de convidados, em mais de 20 jogos que somam mais de 540 milhões de jogadores por mês. Esse número é a audiência dos jogos, e não a quantidade de gente que usa a Tyger, que a empresa não informou. O plano é relançar o serviço ainda este ano, já com o catálogo da Universal, um novo plano gratuito com anúncios e uma nova assinatura. A empresa diz que funciona em PC, console e celular, mas não marcou data pro relançamento nem divulgou preço.

Também não se sabe quais artistas da Universal entram, quantas faixas, nem como o dinheiro será dividido entre gravadora, editora e artista. E a Tyger tem concorrência: a Reactional Music, outra empresa de música adaptativa pra games, já tem parceria com o selo independente Ninja Tune. O mercado está se formando agora, e quem chega primeiro com catálogo grande tende a ditar o preço.

Quando a música muda de forma a cada partida, sobra uma pergunta simples: quanto vale cada versão que ninguém gravou.

O que isso muda

Olhando como empresário, gosto do modelo. Ele trata o catálogo como matéria-prima licenciada, com autorização e receita, num lugar onde a música quase não gerava dinheiro: o tempo que a pessoa passa jogando. Mas o detalhe que mais me chama atenção é a ordem dos fatores. A Tyger montou a base com mais de 400 mil faixas de independentes, provou que a ideia funciona, e agora a major entra com o peso do catálogo dela. Já vi isso acontecer em outras plataformas: o independente abre a porta e depois briga por espaço com quem chegou com nome conhecido.

Pra quem administra obras, como a Music Copyright faz no ecossistema da ALKA, o recado é prático. Uso adaptativo por IA é um tipo novo de exploração da música, e muito contrato de distribuição e de edição foi escrito antes de isso existir. Vale abrir os contratos e ver se eles falam desse uso, quem autoriza e como a receita é repartida entre gravação e composição. Quando os termos do acordo da Universal aparecerem, se aparecerem, vão servir de referência pro resto do mercado.